Processo de amadurecimento profissional congelado

Como tema para o artigo deste mês proponho uma reflexão sobre um sofrimento que tenho observado como muito comum entre profissionais das mais diversas áreas de atuação: testemunhar uma espécie de congelamento no seu próprio processo de amadurecimento profissional.

São profissionais que no início da carreira crescem, porém apenas até um determinado ponto, quando então param de crescer. Enquanto seus colegas de trabalho continuam crescendo e se desenvolvendo vertical ou horizontalmente, estes permanecem travados, independente do volume de esforço que realizam. Não me refiro aqui simplesmente a falta de oportunidades e de novos cargos vagos no contexto de trabalho, mas muito mais profundo do que isto, situações em que a pessoa não reconhece condições subjetivas suficientes para realizar quaisquer movimentos efetivos que possibilitem a retomada do seu amadurecimento profissional. Também situações em que a pessoa reconhece que, “em algum lugar do passado” teria tido condições subjetivas de voltar a se desenvolver, porém no presente, não consegue reunir energia suficiente para tal empreendimento.

 

Como psicanalista, não posso deixar de apontar que uma primeira hipótese básica para se pensar este fenômeno esteja relacionada com o tipo de investimento realizado para preparar o crescimento na carreira. Arrisco em afirmar que, entre os leitores deste artigo, o tempo médio investido na preparação intelectual formal para a carreira tenha sido de 15 a 18 anos (considerando ensino básico, médio, superior e algum curso de pós graduação, MBA ou mestrado). Mesmo sem contabilizar a participação em inúmeros congressos e cursos pontuais, são pelo menos 15 metódicos anos de compromisso diário na preparação intelectual para o amadurecimento da carreira. Repito: 15 anos de compromisso diário em preparação intelectual.

Em contrapartida, quantos anos foram investidos em uma preparação emocional formal?

No artigo de março discutimos sobre como o estado emocional constantemente influencia a vida, tanto em âmbito pessoal quanto profissional, e sempre de forma indissociável uma vez que o ser humano é pulsional por natureza. Porém, apesar de experimentarmos diferentes afetos todos os dias, isto não implica automaticamente em amadurecimento emocional…

Para ilustrar, pense no seu contexto profissional dos últimos tempos, e tente relembrar quantas vezes você se viu atuando em: atitudes impulsivas; reações infantilizadas; uso desproporcional de destrutividade e/ou de auto-boicote; elevado grau de dependência, e/ou de conformismo e/ou de apego a sua “zona de conforto profissional”;  insegurança e/ou paralisia profissional; esperar indefinidamente pelo reconhecimento dos gestores; lento restabelecimento após sofrer perdas ou frustrações; etc, etc

Não seriam justamente estes alguns indícios de uma falta de preparação emocional formal, associada a falhas na preparação emocional empírica?

Outra hipótese que lanço para pensarmos sobre este fenômeno, está baseada nos conceitos envolvidos na teoria do amadurecimento proposta pelo psicanalista inglês Donald Winnicott. De forma extremamente resumida, ele afirma que o amadurecimento é um processo emocional contínuo, desde o nascer até o morrer, que percorre um caminho desde a total dependência até a autonomia.

Dentre os diversos aspectos envolvidos nesta teoria, chamo a atenção para um em especial: a importância do ambiente no desenvolvimento do indivíduo.

Segundo Winnicott, para começar a sair da total dependência, é necessário criar um espaço potencial, que é um espaço entre o próprio indivíduo e a pessoa da qual ele é totalmente dependente. Originalmente a total dependência remete ao estado fusional “mãe+bebê”, mas com o crescimento cronológico do indivíduo, esta dependência pode ser transferencialmente repetida sempre que o indivíduo estiver em algum estado de total dependência de outra pessoa, mesmo que inconscientemente.

(Exemplo: Na fase adulta, algumas pessoas sentem-se completamente dependente do emprego em funçao dos seus compromissos financeiros, e, em função disto, não se arriscam nem mesmo a compartilhar suas opiniões de trabalho quando estas podem gerar conflitos com os seus superiores.)

Pois bem, este espaço potencial entre o indivíduo e a pessoa da qual ele é dependente, é uma espécie de “área de manobras” onde experimentações de transição são realizadas, sempre em direção à autonomia. A medida que o indivíduo vai adquirindo confiança neste processo, vai amadurecendo. A autonomia nos mais diversos aspectos é conquistada desde que condições ambientais saudáveis sejam mantidas durante o tempo necessário para sustentar o próprio processo.

Porém, se ocorrerem falhas graves nas condições ambientais deste espaço, as potencialidades do indivíduo podem permanecer congeladas em diferentes estágios de dependência. Em outras palavras, as potencialidades do indivíduo são fixadas em um determinado grau de infantilização. (O próprio Winnicott coloca que: “Um dos problemas mais difíceis da nossa técnica psicanalítica consiste em saber qual é a idade emocional do paciente num dado momento da relação transferencial.”)

Estas falhas nas condições ambientais podem ocorrer tanto quando a angústia da mãe, ao perceber a separação do filho, o coíbe de novos experimentos rumo à autonomia; como também quando o chefe inseguro veta quaisquer iniciativas criativas dos seus colaboradores; ou quando a mãe supre absolutamente todas as necessidades do filho, antes mesmo deste ter sentido a frustração da falta; ou quando a própria empresa exerce um papel dominador mantendo seus colaboradores em uma posição excessivamente submissa; etc (apenas para citar alguns exemplos)

Retomando a proposta de reflexão inicial do artigo: sofrimento relacionado ao congelamento no processo de amadurecimento profissional.

Restabelecer o seu processo de amadurecimento profissional é possível, tanto quanto descongelar as potencialidades que estão fixadas em diferentes estágios de dependência. Também é possível proporcionar transformações nos espaços potenciais que mantém você em diferentes graus de infantilização.

A adoção de um compromisso pessoal de forma regular (seja diário ou semanal), para colocar tais questões em discussão e em perspectiva, através da análise e elaboração destes afetos, e através de novas experimentações transicionais, contribui para uma melhor preparação emocional para outras situações angustiantes vindouras; e principalmente, para retomar o processo de amadurecimento rumo à autonomia.

Você pode mergulhar neste projeto sozinho empiricamente; ou formalmente através do uso de algum espaço potencial estabelecido com um interlocutor de confiança.

Mas há alguns requisitos para que isto aconteça: mantenha em mente que este processo leva algum tempo: o seu próprio tempo subjetivo de maturação. E acima de tudo, esta tarefa vai exigir um sério compromisso emocional com você mesmo!

Cuide-se!

Débora Andrade
Psicanalista
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2 comentários sobre “Processo de amadurecimento profissional congelado

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