Você e a Intolerância

Tempos atrás eu realizei através do Projeto Instigar um workshop sobre “Assédio Moral no Ambiente de Trabalho”, com a proposta de, a partir de um olhar psicanalítico sobre o assunto, colocar em discussão possibilidades de transformação desta realidade dentro das empresas. Desde então quero escrever um artigo sobre isto, mas somente agora, terminado o mês de novembro em que estive envolvida em diversas atividades relacionadas a Semana Global do Empreendedorismo, consegui me dedicar ao assunto. Neste artigo, comento a respeito de um dos diversos elementos deste complexo assunto: você.

Cada vez atualizada de formas distintas, a incapacidade de tolerar diferenças, associada a preconceitos e ao perigoso jogo de poder, resulta em manifestações explícitas e também veladas de agressividade no ambiente de trabalho.

Por motivos óbvios, usualmente são apontadas como vítimas apenas as pessoas que são o alvo direto do agressor, mas as testemunhas de tais situações não serão também vítimas?

Alguém que testemunha uma situação de agressão é invariavelmente remetido a uma ambiguidade de sentimentos:  Por um lado, sente compaixão pela dor e sofrimento da pessoa que está sendo agredida. Misturado com a sensação de impotência em impedir que tal agressão se perdure: omissão que o torna, mesmo sem querer, conivente com o agressor. Além disto, sente o temor de ser ele próprio uma possível futura vítima deste mesmo agressor, o que o faz sentir-se inconscientemente profundamente aliviado por, neste instante, ser outra pessoa o alvo do agressor. Esta ambiguidade de sentimentos se resume, grosseiramente, entre se identificar com o agressor ou com o agredido.

Portanto, guardadas as devidas proporções, tanto o alvo direto do agressor como também suas testemunhas são vítimas. Em ambos os casos, as consequências psíquicas podem ser devastadoras.

A teoria psicanalítica analisa os complexos mecanismos psíquicos que sustentam as reações defensivas baseadas no dito popular de que “o ataque é a melhor defesa”.  Sendo assim, até que ponto tais vítimas não se tornarão, elas próprias, em agressores em futuras situações de vulnerabilidade que remotamente as remeta ao sofrimento que vivenciaram no passado? Sob este ponto de vista, até que ponto os vilões agressores do presente, não foram, eles mesmos, vítimas de agressões no passado?

Para ilustrar esta perigosa oscilação de papéis, recomendo assistir o filme “Crash, no Limite”, em que absolutamente todos os personagens adultos são vítimas de agressões, como também são agressores em diferentes contextos. Todos os personagens. Sem exceção. Como um infindável ciclo vicioso de intolerância e violência.

Você reconhece em você quais são os gatilhos que despertam a SUA agressividade, fúria e intolerância para com os outros?

Sob o ponto de vista da psicanálise, quando se fala em intolerância, se diz muito mais a respeito do agressor que não tolera, do que da vítima que não é tolerada.

É mais fácil para o ser humano atacar o outro, do que a si mesmo. Através do mecanismo psíquico de projeção, o agressor “projeta” na vítima  todos aqueles aspectos de si mesmo que não tolera, e que não gostaria de ter. Atacando no outro, aquilo que, em verdade, gostaria de eliminar de si mesmo… Atacando aspectos do outro, como se tais aspectos não pertencessem a si próprio…  (A projeção é um mecanismo psíquico inconsciente que “deposita fora algo que originalmente nos pertence para lidar com estes elementos como se fossem externos.”)

Desta forma, é interessante se propor o seguinte exercício:  ao perceber que você não tolera alguém, pergunte-se: O que de você causa tal intolerância? Quais serão os aspectos de você mesmo que estão inconscientemente projetados nesta pessoa que você não tolera?

Será possível realizar qualquer ação efetiva em relação a intolerância sem iniciar esta análise em si mesmo?

Será esta uma fora de sair da posição de vítima/agressor e interromper este destrutivo ciclo vicioso?

Para que uma “com vivência” saudável possa ser estabelecida e mantida em qualquer ambiente,  é necessário uma aceitação de si mesmo e também do outro.  A escolha é sua!

Mas lembre-se que a transformação deve iniciar em você mesmo!

Cuide-se!

Débora Andrade

Psicanalista

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3 comentários sobre “Você e a Intolerância

  1. Adorei este filme. Muito oportuna a lembrança e sua avaliação sobre as relações interpessoais dele, em especial sob este ângulo principal da intolerância!

    Curto bastante filmes que tratam de diálogos e relações fortes, em diferentes níveis.
    Isso me fez lembrar de outra jóia do cinema: BABEL. Se não viu, fica a dica. Digno de OSCAR mesmo.

    Ótimos artigos, parabéns. Grata descoberta do site seu e da Debora.
    Abs!

  2. Olá Inês,
    Obrigada pelo comentário.
    E, sim, assisti o BABEL e concordo plenamente com você, é um filme excelente que nos provoca a pensar em diversas coisas! Impressionante como muitas vezes as pessoas não se dão conta das consequencias das suas ações em afetar profundamente a vida dos outros…
    Obrigada pela dica do filme, vou fazer referência ele em um próximo artigo
    Abraços,

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