Quando não há nada, o que vemos?

.Fernand Deligny - Fonte da Foto: Bienal

Que aspectos da sua subjetividade são fisgados por esta provocante questão da  30ª Bienal?

Ao dialogar com esta mesma questão, em diferentes momentos da sua vida, será que diferentes aspectos da sua subjetividade virão a tona?

Será que você está disponível para perceber estas sutilezas em você?

Em um cotidiano regido pela hiper atividade, em que somos constantemente bombardeado por uma profusão de estímulos externos, é verdadeiramente um desafio permitir-se investir algum tempo neste mergulho subjetivo.

Na última terça feira, dia 16/Outubro/2012, um grupo de pessoas aceitou o convite de reunir-se no Espaço Conceito Citroën Oscar Freire para um workshop inspirado nestes questionamentos.

As facilitadoras Luciana Chen e Patrícia Marchesoni Quilici iniciaram as atividades apresentando uma determinada constelação de artistas presentes na 30ª Bienal, cujas poéticas dialogam com estas sutilezas da percepção.

Tempo foi justamente a moeda investida pelo artista performático Theching Hsieh na obra “Perfurando o relógio de ponto“, na qual realizou sistematicamente o registro fotográfico do seu rosto em cada uma das 24 horas do dia, durante o período de 1 ano.

É apenas uma obra sobre tempo e vida.“, diz o artista.

Inevitavelmente este artista convoca você a refletir sobre quais são as “auto-prisões” que você voluntariamente se submete no decorrer de diferentes períodos da sua vida…

Registro da vida dos personagens de um determinado tempo também são elementos presentes nas obras dos  fotógrafos August Sander (que fotografou pessoas de todas as classes sociais na Alemanha durante o período entre guerras) e Hans Eijkelboom (que busca padrões na forma de se vestir da população de diferentes cidades do mundo, atraves de um registro fotográfico realizado em curtos períodos de tempo).

 

Atalho I - Fernando Ortega - Bienal

Na obra “Atalho I” (ao lado), do mexicano Fernando Ortega, poucos espectadores investem o tempo necessário para perceber a pequena formiga atravessando a ponte artificialmente criada entre as folhas da árvore. Na descrição que a  30ª Bienal apresenta sobre o artista: “Permeada pela dimensão íntima da experiência e do contato no dia a dia acelerado, sua obra guarda um caráter performático que busca interrogar os limites entre o real e suas possíveis representações.”

Quantos longos desvios de percurso, e desperdício de energia você gasta, em função de não investir o tempo necessário para perceber a sutileza de algumas pontes disponíveis na sua própria vida?

O jardineiro e artista  Ian Hamilton Finlay, com sua poesia concreta, nos brinda através de experimentações com a linguagem e diversos desvios de significados, inclusive de clássicos referenciais da cultura; assim como o artista  Sigurdur Gudmundsson, que acrescenta uma pitada de humor na sua coleção de fotogradfias intitulada “Situations”.

Adentrando no campo da linguagem, o artista Fernand DeLigny, através das “linhas de errância”, dá visibilidade ao que é possível em termos de expressão à crianças autistas, carentes de linguagem.

Enquanto Arthur Bispo do Rosário (que apesar de nunca ter se considerado um artista, é a grande estrela da 30ª Bienal), resignifica absolutamente todos os materiais disponíveis no seu cotidiano, em uma compulsiva necessidade de produção. Na descrição que a  30ª Bienal apresenta sobre o artista: “Arthur Bispo do Rosário viveu por meio século recluso em um hospital psiquiátrico. Transitando entre a realidade e o delírio, acreditava estar encarregado de uma missão divina e utilizava materiais dispensados no hospital para produzir peças que mapeavam sua realidade. Valendo-se da palavra como elemento pulsante, manipulou signos e brincou com a construção e desconstrução de discursos para criar bordados, assemblages, estandartes e objetos que seriam, posteriormente, consagrados como obras referenciais da arte contemporânea brasileira.

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Já as obras de Waldemar Cordeiro e Ricardo Basbaum só se completam e fazem sentido a partir da interação daqueles que deixam de ser espectadores, para mergulhar no convite criativo dos artistas.

Exatamente como fez um dos participantes do workshop, ainda quando era uma criança, que ao se deparar com um “labirinto de concreto” no Clube-Parque Esperia em São Paulo, perto da sua casa, brincava de esconde-esconde com seus amigos, mal sabendo eles, que se tratava de uma obra de arte do artista Waldemar Cordeiro.

Por Um Viver Mais Criativo - Quando não há nada, o que vemos?

Neste ponto do workshop, sensibilizados pelas provocações geradas a partir da discussão sobre as obras destes artistas, a psicanalista Débora Andrade convidou o grupo a mudar o ponto referencial: deixar de lado os artistas e suas obras, e focar nos próprios participantes do encontro e nas suas vidas.

Aplicando a essência disto tudo em uma reflexão a respeito da sua vida cotidiana:

Qual o grau de desprendimento dos referenciais construídos e colecionados no decorrer da sua vida?

Quando aparentemente não há nenhum referencial conhecido à vista, como você interage com o vazio?

O que aconteceria se os principais referenciais que hoje servem de alicerce para sua vida, deixassem de existir? Restando apenas o vazio?

Através de uma atividade lúdica, os participantes se divertiram na re-construção de sentidos coletivos para estes questinamentos! Mas é interessante mencionar os conceitos propostos através desta brincadeira:

O vazio remete a pensar em “estado de desamparo”, que é um conceito descrito por Freud, no qual o bebê humano é totalmente dependente de algum adulto para suprir suas necessidades de sobrevivência, e totalmente impotente para tomar qualquer ação efetiva para sair deste estado de desamparo. Sendo que este mesmo afeto que marcou o estado de desamparo infantil, volta a assolar o adulto em momentos de angústia.

Segundo o psicanalista Donald Winnicott no decorrer de toda a sua vida, o homem atravessa um processo de amadurecimento emocional, em que sai da “dependência total” da relação mãe-bebê para um “estado de autonomia”. Este processo é realizado através do uso de um espaço potencial que permita experimentações de viver e de separação, sustentadas por um elemento essencial: a confiança.

Confiança essencialmente no laço amoroso existente na relação entre o próprio sujeito e a pessoa de quem é dependente (ou nas relações atualizadas do laço original “mãe-bebê”).

Com base nesta confiança é possível, durante a experiência de separação, brincar com as diversas possibilidades de criar algo ali, onde nada existia. O resultado do exercício contínuo deste processo é, além do amadurecimento do estado de autonomia, o desenvolvimento do viver criativo.

E você? Como se posiciona frente o seu estado de desamparo?

Quais as situações de impotência no cotidiano da sua própria vida?

Nestas situações em que você é impotente, da potência de quais referenciais você é dependente?

Como brincar com as diversas possibilidades de criar algo ali, onde nada existe?

Cuide-se!

Débora Andrade
Psicanalista

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Por Um Viver Mais Criativo - Quando não há nada, o que vemos?

O ciclo de encontros Por Um Viver Mais Criativo tem como objetivo despertar o potencial criativo que as pessoas podem aplicar na sua vida cotidiana, inspiradas através de uma articulação leve e criativa entre Artes & Reflexões, utilizando como fio condutor, duas importantes exposições de artes disponíveis durante o segundo semestre de 2012 na cidade de São Paulo:  “Impressionismo – Paris e Modernidade” e a “30ª Bienal Internacional de Arte Contemporânea”.

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