Como medir a distância que te separa do que você diz?

30 Bienal

Com a palavra ambiguidades em mente,  Luciana Chen e Patrícia Marchesoni Quilici, coordenadoras do educativo do CCBB, selecionaram o trabalho de alguns artistas presentes na 30ª Bienal para introduzir os participantes nas reflexões do terceiro workshop do ciclo  Por Um Viver Mais Criativo, realizado na quarta feira, dia 31/Outubro/2012 no Espaço Conceito Citroën Oscar Freire.

30-Bienal-Franz_Mon

A poesia concreta do alemão Franz Mon, que brinca com as palavras como se fossem imagens, e que também brinca com as imagens como se fossem roupas na lavanderia da sua casa, deu início ao percurso do grupo.

Também usufruindo da caracterísitca visual das palavras, o escritor e poeta chileno  Juan Luis Martínez, trabalha em um jogo de transformações, criando uma terceira linguagem, que não temos os códigos para compreender. E compartilha conosco: “Os pássaros cantam em passarístico, mas os escutamos em espanhol. (o espanhol é uma língua opaca, com um grande número de palavras fantasmas; o passarístico é uma língua transparente e sem palavras. […]  A língua dos pássaros é uma língua de signos transparentes em busca da transparência dispersa de algum significado.” – Juan Luis Martínez

Elaine Reichek

Se por um lado a americana Elaine Reichek nos convida a pensar qual é o papel do pesquisador da história da arte, através da sua obra “Warburg– inspirada no exclusivo instituto de mesmo nome, cujo acesso é limitado e restrito a poucos. Por outro lado, cria a sua própria história da arte usando o tradicional e pictório bordado como linguagem para unir diferentes épocas e referênicas na obra “Linha é como um fio“, em que apresenta a mitológica Ariadne (Teseu / Minotauro / Creta) como uma atração em um cartaz publicitário.

Enquanto o quase interminável trabalho de Lucia Laguna, que mescla paisagens urbanas, ambientes internos, intervenções da sua equipe de colaboradores, bem como marcas vigorosas do seu próprio imaginário, não permite nosso olhar descansar.

Pensar sobre o sentido de avaliações de indivíduos e de grupos é o convite que o artista argentino Martín Legón nos faz através da sua obra “O Teste do Homem sob a Chuva“: centenas de pessoas desenharam em uma folha “um homem sob a chuva”. Tais desenhos foram submetidos ao crivo de profissionais de três áreas distintas: um psiquiatra, um curador de arte contemporânea, e um profissional de RH. Cada um dos três, com seus próprios filtros e critérios, selecionaram o desenho que mais chamou sua atenção, rejeitando todos os demais. (A propósito: absolutamente todos os desenhos que participaram deste projeto estão expostos na Bienal, para que você possa fazer a sua própria seleção…)

O longo trabalho fotográfico do radialista, intelectual e escritor venezuelano Alfredo Cortina, somente é descortinado após a sua morte pelas mãos da sua esposa, a poetiza Elizabeth Schön – modelo exclusiva de sua obra.

A jovem Sofia Borges confunde o espectador, que muitas vezes acreditar se tratar de pintura suas obras, cuja tecnica em verdade é fotografia impressa em simples algodão de grandes dimensões.

30-Bienal-Alberto-Bitar-por-Luciana-ChenApesar de Alberto Bitar também propor um diálogo interessante entre pintura e fotografia, com sua série “Completude” – que ambiguamente retrata o vazio; foi a série “Corte Seco” que gerou maior desconforto no grupo, pois o espectador vê o seu próprio reflexo inevitavelmente inserido na cena, explicitando a realidade violenta que convivemos.

Para ilustrar esta situação criada pelo artista: esta é uma das fotografias que a Luciana Chen tirou de uma das obras de Alberto Bitar na 30ª Bienal: e lá está ela, ao lado do cadaver extendido no chão.

O desconforto gerado no grupo evidencia um forte sentimento compartilhado de impotência frente a complexidade e dimensão deste problema presente no nosso cotidiano, do qual muitos querem fugir, se esconder… Mas será realmente possível se esconder? Ou apenas nos iludimos com ações individuais paliativas sobre os sintomas desta realidade social. E sendo social, será que a construção de soluções não deveria envolver algumas mobilizações?

Quem brinca de esconde-esconde é o30-Bienal-David_Moreno-por-Debora-Andrade artista Nino Cais, que apresenta no registro fotográfico do seu trabalho, uma inusitada mescla de objetos do cotidiano com o seu próprio corpo, sempre escondendo o seu rosto.

Já o artista americano David Moreno não se esconde, e nem se cala! Literalmente quer dar voz e reverberação às imagens.

Transpor da ambiguidade presente na obra dos artistas, para uma reflexão sobre a ambiguidade de cada um dos participantes do workshop foi a proposta da psicanalista Débora Andrade deste ponto em diante do encontro.

Ambiguidades estas que evidenciam a existência dos conflitos internos que cada um de nós convive diariamente.  Alguns destes conflitos são manifestos, como por exemplo, entre dois sentimentos contraditórios. Outros, estão latentes, inconscientes, e somente se apresentam de maneira deformada, como formação de sintomas. Sintomas de nós mesmos…

Por-Um-Vive-Mais-Criativo-Workshop-3-Foto-1Por-Um-Vive-Mais-Criativo-Workshop-3-Foto-2

A psicanálise considera o conflito como constitutivo do ser humano: conflito entre desejo e mecanismos de defesa; conflito entre pulsão de vida e pulsão de morte; e o próprio conflito edipiano.

Segundo o psicanalista inglês Wilfred Bion toda a questão humana está relacionada com a verdade: a verdade da condição humana; a verdade das suas características; algumas verdades inconvenientes a nosso próprio respeito…

O homem é um ser que, tendo um conflito com a verdade, mente para si mesmo. – W. Bion

Articulando este conceito com o principal tema do workshop inspirado na Bienal: “Como medir a distância que te separa do que você diz?”, a principal questão que se coloca é: qual é o conhecimento a seu próprio respeito que você teme ter neste momento?

Intercalando momentos de silêncio com vigorosas discussões, o grupo transitou por todas estas questões com um interessante desafio em mente:

Como utilizar-se das suas próprias ambiguidades como material de trabalho para desenvolver um viver mais criativo?

Visita-30-Bienal-6Nov2012-Foto-1
Para finalizar esta sequencia, na terça feira, dia 6/Novembro alguns integrantes do grupo reuniram-se novamente, desta vez na própria 30ª Bienal, para conhecer pessoalmente o trabalho desta constelação de artistas que embasaram as reflexões.

É impossível reproduzir em um simples relato como este, os diversos insights que os participantes tiveram a partir da intensa troca entre eles. Provavelmente os mais interessantes insights tenham ocorrido dias depois do workshop…

Participe do próximo workshop, e vivencie esta experiência por você mesmo!

Cuide-se!

Débora Andrade
Psicanalista

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O ciclo de encontros Por Um Viver Mais Criativo tem como objetivo despertar o potencial criativo que as pessoas podem aplicar na sua vida cotidiana, inspiradas através de uma articulação leve e criativa entre Artes & Reflexões, utilizando como fio condutor, duas importantes exposições de artes disponíveis durante o segundo semestre de 2012 na cidade de São Paulo:  “Impressionismo – Paris e Modernidade” e a “30ª Bienal Internacional de Arte Contemporânea”.

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