Lidando com perdas…

 

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“Eram 6h. Minha filha me acordou. Ela tinha três anos. Fez-me então a pergunta que eu nunca imaginara: “Papai, quando você morrer, você vai sentir saudades?”. Emudeci. Não sabia o que dizer. Ela entendeu e veio em meu socorro: “Não chore, que eu vou te abraçar…” Ela, menina de três anos, sabia que a morte é onde mora a saudade.”          Rubem Alves

Todo o ser humano, de tempos em tempos, é convocado a ter que lidar com diferentes tipos de perdas: a morte de uma pessoa amada, a perda de um emprego, o término de um relacionamento amoroso…

Para efeitos de facilitar este artigo, foco a análise dos processos psíquicos envolvidos ao se lidar com a morte de uma pessoa amada. Mas tenha em mente que em todas as perdas citadas anteriormente, se instaura um processo de luto, onde alguns aspectos temporários são comuns:

  • Desligamento do mundo externo: ele não tem mais graça nenhuma… nada chama a atenção.
  • Desânimo: uma vontade de se afastar de toda e qualquer atividade corriqueira… nada tem muito sentido.
  • Perda da capacidade de amar: como se, na adoção de “novos amores”, se estivesse “substituindo” aquele que se foi…

Isto sem falar de diversos outros sentimentos envolvidos… Mas o fato é que, de uma hora para outra, uma pessoa amada, que recebia constantemente investimento emocional, deixa de existir. Mas o investimento emocional propriamente dito não desaparece junto com a pessoa que se foi. A “fábrica” deste investimento continua funcionando forte e constantemente, porém sem ter um destino vivo para esta produção…

Cito Freud: “Em que consiste, portanto, o trabalho que o luto realiza? O teste da realidade revelou que o objeto amado não existe mais, passando a exigir que toda a libido seja retirada de suas ligações com aquele objeto.

O que em outras palavras, como certa vez ouvi de alguém: “o luto é uma gestação ao contrário”. É necessário em um primeiro momento aceitar a perda, e então elaborar isto. E aos poucos, deixar de investir emocionalmente nesta pessoa.

É “fácil” falar isso, porém tão difícil de vivenciar… Não é mesmo? Inicialmente a “ausência da pessoa” está muito presente. Neste ponto há uma tendência natural, muito bem colocada por Melanie Klein: “o indivíduo de luto obtém um grande alívio ao recordar a bondade e as boas qualidades da pessoa que acaba de perder. Isso se deve em parte ao conforto que sente ao manter seu objeto amado temporariamente idealizado.

E, muito lentamente – na velocidade subjetiva, que os recursos psíquicos que cada sujeito possui permite – cada uma das expectativas em relação ao ser amado que se foi, ao ser comprovada pelo teste da realidade que ele não está mais disponível para ser investido, cada uma delas é, ntão, “desinvestida”. Desligada, por assim dizer. Ou seja, todos os vínculos de investimento emocional são psiquicamente reavaliados. Como resultado deste processo não significa esquecer o ser amado perdido. Não! Não é disto que se trata! As lembranças e a saudade obviamente permanecem! Mas simplesmente a fábrica de investimentos emocionais deixa de depositar neste ser amado, novas e constantes expectativas geradas internamente…

Simultaneamente a este processo de teste de realidade e desinvestimento, o indivíduo vai resgatando aos poucos sua confiança (em si mesmo e no mundo), permitindo-se voltar a perceber que a pessoa perdida não era tão perfeita assim, como foi temporariamente idealizada… resgata a percepção tanto das virtudes como dos defeitos do ser amado perdido, passando a preservá-lo em seu interior de forma integrada.

Quando o processo de elaboração do luto finaliza com sucesso, a pessoa volta a ficar “livre” para novos investimentos emocionais e novas expectativas em “novos” destinos.

Então finalmente o indivíduo fica disponível para novas escolhas… A pessoa volta a perceber o mundo externo. Volta a perceber as nuances. Volta a apreciar prazeres. Volta a se interessar em investir novamente no que lhe é importante. Volta a querer amar. Se reconcilia com seus desejos!

O luto, apesar de doloroso, é um processo de recuperação natural vivenciado por uma pessoa que sofre uma perda.

Cuide-se!

Débora Andrade
Psicanalista

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Leia mais a respeito: Artigo sobre Perdas / Projeto Instigar / Setembro 2005.
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